Febre amarela: tire suas dúvidas sobre a doença

Febre amarela: tire suas dúvidas sobre a doença

Em meio ao surto de febre amarela, muitas são as dúvidas que surgem sobre o assunto: qual o papel do macaco, todos os mosquitos transmitem a doença, devo ou não me vacinar mesmo não estando nas áreas de risco, cães e gatos podem ter febre amarela?

Vale ressaltar aqui que não há nenhum registro de cães e gatos desenvolverem a doença até o momento. Mesmo que o cachorro ou gato seja picado pelo mosquito com o vírus da febre amarela, ele não desenvolve a doença e nenhum sinal clínico. O vírus não consegue se desenvolver no animal e é por isso que ele não se torna um hospedeiro.

Para esclarecer o tema, entrevistamos, abaixo, o infectologista Artur Timerman, consultor de limpeza da Condor e presidente da Associação Brasileira de Dengue e Arbovirose. Confira.

 

 

1.Como se contrai a febre amarela? Qual o papel do macaco no ciclo da febre amarela?

R: Na África, várias espécies de mosquitos do gênero Aedes são responsáveis pela transmissão da febre amarela, principalmente o africanusfurcifer e simpsoni. Já nas Américas, os mais destacados transmissores são o Haemagogus – anthinomysalbomaculatus e leucocelaenus – e Sabethes chloropterus.

O principal transmissor, entretanto, é o mosquito Haemagogus janthinomys. Ele apresenta a maior distribuição geográfica conhecida entre as espécies desse gênero, possui hábitos estritamente silvestres e pica o indivíduo que se expõe na mata, ou seja, quando penetra em seu nicho ecológico. Esta espécie apresenta as melhores condições para transmitir o vírus da febre amarela, pois se mostra extremamente suscetível ao mesmo. É primatófila, ou seja, alimenta-se preferencialmente em macacos e, secundariamente, no homem e apresenta atividade diurna, período em que a maioria dos indivíduos realiza suas atividades ou incursões nas matas.

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Durante as epidemias os mosquitos Haemagogus panthinomys que habitam a copa das árvores são encontrados frequentemente infectados com elevados índices. Estas características explicam a facilidade em transmitir a virose, sendo “credenciados” como principal transmissor da febre amarela no Brasil e em quase todos os países da América do Sul, onde esta doença atinge níveis endêmicos.

Além de transmissores, os mosquitos são considerados os reservatórios do vírus, pois, uma vez infectados, assim permanecem por toda vida. Eles são o contrário dos macacos. Assim como os homens, os macacos morrem ao se infectarem ou acabam se curando, ficando, então, imunes para sempre. Desta forma, tanto os macacos como os homens atuam tão somente como “hospedeiros amplificadores da virose”.

 

 

2.Todas as espécies de macacos podem contrair a doença? Quais as mais vulneráveis a doença?

R: Todas as espécies de primatas são suscetíveis à aquisição do vírus, sendo todas vulneráveis a doença. Pelo que os estudos até agora sugerem, as espécies mais atingidas são os bugios, o Sauá ou Guigó e o Sagui-de-cara-branca. Os dois primeiros estão na lista de animais ameaçados, atualizada em 2014 pelo ICMBio -Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade -, conforme a portaria 444 publicada pelo Ministério do Meio Ambiente.

Tanto na África como nas Américas, os hospedeiros silvestres primários do vírus da febre amarela são primatas não humanos. No continente africano, os macacos mostram-se mais resistentes ao vírus e, por conseguinte, ainda que desenvolvam a infecção, raramente sucumbem à mesma. Isto permite a rápida renovação da população símia, o que facilita a manutenção do vírus numa área e encurta os períodos interepidêmicos.

No Novo Mundo, por sua vez, todos os gêneros de primatas não humanos reconhecidos e infectados experimentalmente se mostraram sensíveis e suscetíveis ao vírus amarílico. Nas Américas, alguns macacos mostram grande susceptibilidade ao vírus amarílico como, por exemplo, o guariba – gênero Alouatta. Os guaribas ou bugios quando infectados com doses mínimas do vírus da febre amarela desenvolvem infecção fulminante, comportamento similar aos casos humanos fatais.

Outros apresentam grande resistência, como o macaco prego- gênero Cebus.

Esses animais mesmo infectados com elevadas doses raramente desenvolvem doença grave. Eles desenvolvem infecção subclínica ou quadro febril, fugaz. Evidencia-se viremia à qual se segue produção de anticorpos protetores que neutralizam futuras reinfecções.

 

 

3.Outros animais podem contrair a febre amarela? Senão, explique porquê.

R:  Além do homem, a infecção pelo vírus também pode acometer outros vertebrados. Os macacos podem desenvolver a febre amarela silvestre de forma inaparente, mas ter a quantidade de vírus suficiente para infectar mosquitos. O macaco não transmite a doença para os humanos, assim como uma pessoa não transmite a doença para outra. A transmissão se dá somente pelo mosquito. Os macacos ajudam a identificar as regiões onde estão acontecendo à circulação do vírus. Suspeita-se que outros animais, como os marsupiais arboreais e preguiças, possam ter papel secundário no ciclo de manutenção viral, especialmente em áreas onde os macacos estejam ausentes ou já imunes ao vírus. Na Colômbia, por exemplo, na década de 1940, ocorreu epidemia de febre amarela na ausência de macacos e apenas os marsupiais foram encontrados com anticorpos antiamarílicos.

 

 

4.Quais são os principais sintomas da doença?

R: As formas leves e moderadas da febre amarela têm sintomas semelhantes aos de outras arboviroses como dengue, chikungunya e Zica. Sintomas: febre, dores musculares em todo o corpo, principalmente nas costas, cefaleia, perda de apetite, náuseas e vômito, olhos, face ou língua avermelhada, fotofobia, fadiga e fraqueza. Os sintomas na segunda fase aguda da doença costumam durar entre três e quatro dias e passam sozinhos.

Forma grave: algumas pessoas podem desenvolver sintomas graves no período de 24 a 48 horas após a recuperação dos sintomas mais leves. Na fase chamada tóxica, o vírus pode atingir diversos órgãos e sistemas – principalmente fígado e rins. Os sintomas nesta fase são: retorno da febre alta, icterícia – devido ao dano hepático -, urina escura, dores abdominais, sangramento na boca, nariz, olhos e estômago. Em casos mais graves o paciente pode apresentar delírios, convulsões e até entrar em coma. Dependendo dos danos causados no organismo a febre amarela pode levar a morte no intervalor de sete a 10 dias. Os sintomas podem ser confundidos com malária, leptospirose, hepatite viral e dengue hemorrágica.

 

 

5.O que é febre amarela silvestre e febre amarela urbana?

R: O vírus da febre amarela mantém-se em dois ciclos básicos: um ciclo urbano simples, com a transmissão se dando na correlação homem-mosquito. Nesse contexto, o Aedes aegypti responsabiliza-se pela disseminação da doença. Já no ciclo silvestre, por outro lado, as interações se dão de forma mais complexa, quando há inúmeras espécies diferentes de mosquitos responsáveis pela transmissão, peculiares a cada região específica. Na África, mostram-se responsáveis os mosquitos do gênero Aedes, enquanto nas Américas os principais transmissores dessa forma silvestre são os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes.

 

 

6.Qual a origem do surto de febre amarela atual?

R: No Brasil, a situação atual e preocupante das arboviroses reflete um complexo contexto, no qual interagem a ineficácia de atuação do poder público e da sociedade em geral. Os números mostram que na década de 1960, mais da metade da população residia em zonas rurais. Porém, meio século depois ,2010, 84,4% da população passou a viver em regiões urbanas. Essa inversão aconteceu sem instalação correta de infraestrutura de saneamento básico.

 

 

7.O que é a vacina fracionada? Ela é menos eficaz?

R: A febre amarela faz parte da lista de doenças de notificação compulsória e como tal, qualquer caso suspeito deve ser imediatamente notificado à autoridade sanitária local, estadual ou nacional e está notifica os organismos internacionais. Posteriormente, havendo confirmação laboratorial, a notificação do caso é confirmada e a autoridade nacional ratifica a autoridade sanitária internacional. O método mais eficaz para se prevenir a febre amarela é a vacinação com a composta com a cepa atenuada 17D do vírus da febre amarela. Atualmente, duas subcepas são usadas na produção de vacinas: 17DD no Brasil e 17D-204 no resto do mundo. A diferença é que a 17DD tem 81 passagens a mais em ovo embrionado de galinha comparativamente ao outro preparado vacinal.

No Brasil estão disponíveis duas vacinas: a produzida por Biomanguinhos – Fiocruz, utilizada pela rede pública e a produzida pela Sanofi Pasteur, utilizada pela rede privada. Ambas compostas de vírus vacinal amarílico vivo atenuado cultivado em ovo de galinha. A vacina produzida por Biomanguinhos apresenta em sua formulação a presença de gelatina bovina, eritromicina, canamicina, cloridrato de L-histidina, L-alanina, cloreto de sódio e água para injeção. Já a da Sanofi Pasteur contém: lactose, sorbitol, cloridrato de L-histidina, L-alanina e solução salina. Ambas vacinas têm perfis de segurança semelhantes, assim como estimativa comparável de eficácia estimada ao redor de 95%.

Até março de 2017, o Brasil, apesar das evidências apresentadas pela OMS – Organização Mundial da Saúde – sobre proteção em longo prazo conferida após aplicação de uma única dose da vacina de febre amarela, era o único país a manter o esquema de duas doses, recomendando reforço após 10 anos nas áreas de recomendação ou persistindo o risco epidemiológico para viajantes que se destinam a essas áreas.

No entanto, devido à expansão da circulação do vírus de febre amarela na América Latina e África, diversos países incluíram a vacina da febre amarela na rotina de seus programas de imunização ou realizam campanhas de vacinação. Ocorre que o número de produtores da vacina diminuiu nos últimos 20 anos. Hoje, são 10 produtores sendo que apenas três pré-qualificados pela Organização Mundial de Saúde: Bio-Manguinhos (Brasil), Sanofi – Pasteur (França) e Instituto Pasteur (Senegal).

O crescente registro de casos em nosso país e a necessidade de vacinar nossa população impõe a tomada de decisões de Saúde Pública que permitam proteger o maior número possível de pessoas e, assim, bloquear os surtos notificados. Dessa forma, em 5 de abril de 2017, o Ministério da Saúde divulgou novas recomendações de vacinação, em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde. A partir dessa data foi adotada em todo o país para todas as faixas etárias, a dose única da vacina de febre amarela. Portanto, pessoas que já receberam uma dose da vacina, mesmo que há muitos anos, não serão revacinadas, mesmo em situações de risco. Importante dizer que essas medidas, adequadas nesse momento para controle da situação epidemiológica que vivemos hoje, podem não ser definitivas e serão revistas pelo Programa Nacional de Imunizações. Em caso de viagem a países que exigem o CIVP – Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia -, o Regulamento Sanitário Internacional exige somente uma dose, que também deve ser aplicada pelo menos 10 dias antes da viagem e é considerada válida por toda vida.

O fracionamento da dose da vacina de febre amarela é processo empregado quando se dá concomitantemente premência de vacinação de um grande número de pessoas e há carência no abastecimento do produto vacinal, situação vigente atualmente no Brasil. Toda consubstanciação científica acerca da vacina de febre amarela diz respeito a trabalhos efetuados e publicados com o emprego da dose plena da vacina. É recomendável o uso fracionado, mas devemos alertar a população que sua real eficácia, assim como o tempo em que perdura essa eficácia, são temas a serem esclarecidos em trabalhos ainda a serem efetivados.

 

 

8.Quem deve tomar a vacina e quem não deve tomar?

R: A população alvo a ser vacinada será aquela composta por crianças a partir de 6 meses até adultos com 59 anos. Pessoas com 60 anos ou mais devem receber a vacina se residirem ou forem se deslocar para áreas com transmissão ativa de febre amarela. Pessoas deste grupo etário devem ser avaliados antes da realização da vacinação. Gestantes em qualquer idade gestacional e mulheres amamentando só devem ser vacinadas se residirem em local próximo ao que ocorreu a confirmação do vírus. Mulheres que foram vacinadas e que estão amamentando devem suspender o aleitamento materno por 10 dias, no caso de lactantes menores de 6 meses de idade.

A vacina está contraindicada nas seguintes situações: histórico de reação anafilática – reação alérgica grava – imediata – relacionada a substâncias presentes na vacina como ovo de galinha e seus derivados, gelatina bovina ou outras, idade abaixo de seis meses, doenças que comprometem a imunidade, por exemplo, infecção por HIV sintomática, disfunções de timo associadas com função imune alterada imunodeficiência primárias como câncer e pacientes em terapêutica imunodepressora – quimioterapia, radioterapia e corticoide em doses elevadas.

 

 

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6 de fevereiro de 2018 / por / em , ,

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